quinta-feira, maio 07, 2009


Sempre me tem preocupado, naquelas horas ocasionais de desprendimento em que tomamos consciência de nós mesmos como indivíduos que somos outros para os outros, a imaginação da figura que farei fisicamente, e até moralmente, para aqueles que me contemplam e me falam, ou todos os dias ou por acaso.

Fernando Pessoa




"A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é
tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco,
esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um
campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações;
nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da
nossa vida"
Fernando Pessoa

sábado, abril 25, 2009

Quero dizer-te uma coisa simples:
A tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais. Podia dizer-te e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória e a realidade aproxima-me de ti. Agora que os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas numa refracção de instantes, quando a tua voz me chama de dentro de mim - e me faz responder uma coisa simples como: dizer que a tua ausência me dói, dizer que te adoro, ou ainda o quão importante és para mim.
Nuno Judice

sexta-feira, abril 24, 2009


Quero definir-te o que é este sentimento:
o que pertence à esfera daquilo que a razão
não domina, ou simplesmente nasce da noite,
e de tudo o que a envolve. Falo de uma
íntima relação entre os seres, de emoções
que se transmitem para além de palavras e
conceitos, de um encontro de corpos na
esfera do segredo. Dir-me-ás: "Para que precisas
de uma explicação para o amor?"
Mas é a sua inutilidade que me interessa;
a dádiva, o simples dizer que as coisas são
assim porque são, e para além disso tudo se complica.
Podes, então, rir do que te digo;
ou simplesmente dizer-me que
as palavras nada substituem, e que tudo o que
elas nos dão está a mais. Mas o amor
pertence-nos. Não o podemos deitar fora;
nem fingir que não existe, como não existe
o infinito, a transcendência, a abstracção
divina, para quem só crê no concreto.
É verdade que o amor não se vê: o que vejo
são os teus olhos, a ternura súbita das
suas pálpebras, e o que elas abrem e
escondem numa hesitação de luz.
Eis, então, o que define este sentimento:
um intervalo, uma distracção do tempo,
a divina abstracção do infinito
na transcendência do real.

Nuno Júdice

quinta-feira, janeiro 22, 2009

O ímpeto de crescer e viver intensamente,
foi tão forte em mim, que não consegui resistir a ele.
Enfrentei meus sentimentos.
A vida não é racional!
É louca e cheia de mágoa.
Mas não quero viver comigo mesma.
Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal.
Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos,
beber um Benedictine ardente.
Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas.
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela.
Eu estava esperando.
Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro.
Todo o resto foi uma preparação.
A verdade é que sou inconstante,
com estímulos sensuais em muitas direções.
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos,
e entrei em erupção sem avisar.
Anais Anin

terça-feira, outubro 21, 2008


Despedidas

Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa temde ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a humidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm os que amando tudo o que perderam já não mentem.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
www.joseferreira-photographer.com

quarta-feira, junho 25, 2008

- No que estás a pensar? - Perguntou Pierre, fixando-a.
- Em como é triste deixar-te, sem me ter dado a ti verdadeiramente.

terça-feira, junho 24, 2008


"Não me digas nada,
vejo que me entendes,
mas tenho receio dessa compreensão,
tenho medo de encontrar alguém semelhante a mim
e ao mesmo tempo desejo-o.
Sinto-me tão definitivamente só,
mas tenho tanto medo que o isolamento seja violado
e eu não seja mais o cérebro e a lei do meu universo.
Sinto-me no grande terror do meu entendimento,
meio por que penetras no meu mundo;
e que, sem véus, tenha então que partilhar o meu reino"
Anais Nin

quarta-feira, junho 11, 2008

A pior coisa nos finais é sabermos que
mesmo à nossa frente se encontra a tarefa esmagadora de começar de novo.
Uma Questão de Fé, Jodi Picoult

quinta-feira, março 20, 2008

Se temos de perder uma pessoa que nos é muito cara, quem não preferiria que ela morresse, em vez de ir simplesmente recomeçar a viver noutro sítio? Pode tolerar-se que aquela que era toda a nossa vida cesse de ser tal e comece a sê-lo para outrem ou para si própria?

Cesare Pavase

quarta-feira, fevereiro 20, 2008


Naquele dia
Vestira o meu corpo
Sem a alma,
Vestira o meu corpo
Sem a alegria,
Lavei os dentes
E esqueci-me do
sorriso no lavatório,
Lavei as mãos
E deixei o tacto na toalha;
Nesse dia
Após o trabalho fui dormir,
Deitei o corpo
E reencontrei a alma.
No dia seguinte
Vesti a alma
E deixei metade do corpo esquecido
E a memória no secador de cabelo...
E algo inesquecível de que não me lembro aconteceu:
Porque hoje tenho a alma mutilada
E nem o corpo tenho.
Tiago Nené
Cocktail Bukowski

sábado, dezembro 22, 2007


O que somos, talvez não esteja tão relacionado com o que fazemos,
mas mais com o que somos capazes de fazer quando menos esperamos

quarta-feira, novembro 28, 2007


Hoje gostaria de Me sentir importante!

Só hoje, gostaria que alguém,

consciente ou inconscientemente,

nas suas escolhas,

grandes ou pequenas,

se lembrasse de Mim.

sábado, novembro 10, 2007


O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto alguém.

Essas coisas todas -

Essas e o que faz falta nelas eternamente -;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada -

Três tipos de idealistas,

E eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque eu quero tudo,

Ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço.

Íssimo, íssimo. íssimo,

Cansaço...

Álvaro de Campos

sexta-feira, novembro 09, 2007

Imagina

Alguém te venda os olhos

e te conduz a um local que desconheces...

Quando chegas, ouves uma música

que se confunde com o aroma das velas que ardem.

A temperatura é agradável, acolhedora.

Esse alguém tira-te a roupa, devagar como a música manda.

Depois deita-te sobre uma cama

- e sempre de venda posta –

Derrama um óleo um pouco mais frio que te arrepia.
Quase que consegues ouvir os gritos dos pavios que ardem com vontade.
Um par de mãos espalha com delicadeza o óleo que escorre devagar pelas tuas costas. Com os polegares vai pressionado os músculos que ladeiam a coluna vertebral. E isso arrepia-te.
Depois, com os nós dos dedos, começa a pressionar os lombares até chegar à fronteira do pescoço. Aqui, as mãos envolvem-te os ombros e massajam-nos com mais de força. Sentes um misto de relaxamento e dor...

Uma pausa.

A venda. A música. As velas. O mesmo arrepio, agora nas pernas.
Primeiro, o espalhar do óleo, depois o massajar dos músculos. Ora com mais força, quase a apertar, ora mais devagar... a relaxar. Os dedos que se estendem e passam no limiar de zonas proibidas. A respiração que pára nesses momentos. As mãos que escorregam e se afastam para outras zonas. A respiração que retoma o seu ritmo normal. De novo os dedos. As mãos. Perto, muito perto. A respiração que pára e que acelera. Os dedos. As mãos. Estão ali tão perto.... A venda que não deixa ver. A respiração que atrapalha. As velas a arder com mais vontade. A música a subir de intensidade. Calor, muito calor. Tanto calor. Gelo. Um cubo de gelo que te toca levemente o pescoço. Contorces-te num arrepio. A pele parece querer saltar. Outro toque sobre a coluna e o gelo começa a derreter. O calor que o derrete. O gelo.

O calor que já não atrapalha. O perfume do corpo da pessoa que te massaja, começa a espalhar-se pela sala. Consegues senti-lo. E perturba-te. A venda, a maldita venda que não te deixa ver as mãos que te percorrem o corpo, iluminado pelas velas.

Outra pausa, agora maior. Sentes sopros contínuos. O gemido mudo das velas a adormecer. A música que se cala. O silêncio. O relaxamento. Novamente o silêncio. Consegues ouvi-lo, cheirá-lo, senti-lo. Mas não o podes ver, porque a venda não deixa.

Sentes o silêncio da ausência…

Consegues Imaginar?


sábado, outubro 20, 2007


O Senhor importa-se

que eu lhe conte

a história da minha vida?

quarta-feira, agosto 15, 2007


«Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários?
Qual a razão de tudo isto?
Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados.
Porquê?
Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?»
Haruki Murakami - Sputnik Meu Amor

segunda-feira, julho 23, 2007



As histórias que nos contam podem magoar-nos tanto como aquelas que vivemos

sábado, julho 07, 2007


Sobre uma bala dirijo-me ao meu Deus. Gostaria de lhe dizer que estou no inferno e que grito todos os dias, talvez porque viva apenas com a esperança de alguém me olhar.
Não durmo, não consigo tirar tempo ao que me resta para conhecer os meus pensamentos. Desejaria rezar para sobreviver, mas sei que não basta fechar os olhos para fugir à própria tragédia. Afinal estou morto de mais para poder morrer...
Morri no instante em que pensei ter começado a viver, prque não era possível continuar vazio por dentro.

Daniel Sampaio - Lições do abismo

quarta-feira, junho 27, 2007

E já passaram 29 anos...

terça-feira, junho 19, 2007

Não me contes o fim...

sábado, junho 09, 2007



perdoa-me se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo