- Não é correcto tocares assim nas coisas - dizia-lhe a mãe.
- Então, como se toca?
- Com menos força, agarrando menos. Não te envolvas tanto.
domingo, abril 20, 2014
sábado, março 22, 2014
Quando me levanto, não sei se estou doente ou se é só a solidão. Foram estas as tuas palavras ao balcão, entre as pessoas que entravam e saíam, e nenhuma reparava que havia alguém ali a gritar uma dor que de tão funda não se ouvia. Mal te conheço, mas depois disto é como se nos conhecêssemos. Talvez um dia use esse batom vermelho, esses brincos dourados de metal barato a coroar o penteado de cabeleireiro, e no sorriso a mesma largura triste de uma distância que jamais se alcançará (será ela que nos une uma vez mais). Antes disso, vou falar-te das minhas manhãs quando me levanto. Um peso no corpo, uma morte no olhar, corredor estreito por onde os passos avançam em direcção ao copo onde dissolvo a vitamina C em água. Logo o cigarro, a primeira baforada, como se uma esperança, embora uma esperança de nada. Seguir para o banho, copo e cigarro, o espelho em frente, cercado por azulejos brancos macabros. O resto já sabes, não preciso dizê-lo.
Somos assim dois, eu e tu.
Somos assim dois, eu e tu.
quarta-feira, março 05, 2014
Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. Não desejava uma incerteza, mas a História, a verdade.
Ouve-se: Idina Menzel - Let it Go
quarta-feira, fevereiro 19, 2014
William Faulkner
Fotografia: Mark Seliger
Ouve-se: A Great Big World & Christina Aguilera - Say Something
Fotografia: Mark Seliger
Ouve-se: A Great Big World & Christina Aguilera - Say Something
domingo, janeiro 19, 2014
Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior escondido
Raul Brandão (preâmbulo do livro Claraboia, de José Saramago)
Fotografia: Jean Baptiste Mondino
Ouve-se: Colbie Caillat - Hold on
quarta-feira, dezembro 25, 2013
A morte não é nada.
Apenas passei para o outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro, ainda somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a triste ou solene.
Continues a rir do que ríamos juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou.
Sem nenhum exagero, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou.
Continua sendo o que era.
O cordão da união não se quebrou.
Por que eu estaria fora do teu pensamento, apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe, somente estou do outro lado do caminho.
Seca tuas lágrimas e, se me amas, não chores mais.
Apenas passei para o outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro, ainda somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a triste ou solene.
Continues a rir do que ríamos juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou.
Sem nenhum exagero, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou.
Continua sendo o que era.
O cordão da união não se quebrou.
Por que eu estaria fora do teu pensamento, apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe, somente estou do outro lado do caminho.
Seca tuas lágrimas e, se me amas, não chores mais.
Fotografia: autor desconhecido
domingo, dezembro 15, 2013
Onde não puderes amar, não te demores.
Frida Kahlo
Fotografia:Lincoln Clarkes
Ouve-se: Michael Bublé - Close your eyes
domingo, dezembro 01, 2013
Eu
respondia: ninguém é longe. As pessoas são sempre perto de alguma coisa e
perto delas mesmas. A minha irmã dizia: são. Algumas pessoas são longe.
Quando for grande quero ser longe.
Ouve-se: U2 - Unchained melody
Fotografia: Lincoln Clarkes
terça-feira, novembro 05, 2013
Oferecer, no bom sentido da bondade, é dar a outros aquilo que nos fará falta ou que mais bem faremos guardando.
Miguel Esteves Cardoso
Fotografia: Jean-Baptiste Mondino
Ouve-se: John Legend - Made to love
terça-feira, outubro 22, 2013
Os desgostos de amor são horríveis. E, por serem horríveis, as pessoas
dizem que fazem parte; que são o preço; que são um caminho; que dão
força e fazem crescer. Tal é o medo de aceitar a totalidade da tragédia
que são, que se chega ao ponto de ver os desgostos de amor como um rito
de passagem não só para a humanidade como para o próprio amor – o que é
muito mais grave. É sempre outrem que fala assim levemente, alguém que,
se calhar, nunca teve um desgosto de amor digno do nome ou, se o teve,
já o esqueceu e, ao esquecê-lo, provou que nunca amou, por muito
desgostoso que tenha ficado. Porque também existe o desgosto de ser
abandonado por alguém de quem nos habituáramos a fugir, e de já não ser
amado por quem nunca amámos. Mas isso é um simples desgosto que nada tem
a ver com o amor. Já um desgosto de amor é um desgosto completo: uma
desilusão e uma angústia; uma frustração de quase não existir, que
começa por nós próprios, num incêndio de chuva que vai por aí afora até
estragar o mundo inteiro, incluindo o que mais se queria proteger: a
pessoa amada. Os abutres da consolação pretendem reclassificar os
desgostos e ofender o amor e, distraídos pelo prazer necrófilo de
cheirar, mesmo numa pessoa amada, a morte do amor alheio – tão secreta e
infinitamente invejado! -, chegam a dizer as três palavras mais
estúpidas, cruéis, inúteis e indignas daquelas circunstâncias: “Foi
melhor assim.” Acrescentando, às vezes, mais duas: “Deixa lá.” Como se
pudéssemos responder: “Boa ideia – vou deixar!” Os desgostos de amor
estragam a alma. É preciso ter muito medo deles. Respeito. Cuidadinho.
Tratar o amor nas palminhas. Mesmo antes de chegar a pessoa que se vai
amar. É que os corações partidos ficam partidos. Deixam de poder amar.
E, em vez de amar, tornam-se músculos leves e cínicos, trocistas e
elegantes. Pode até ser muito giro ser assim. Mas está para o amor como o
gosto duma pedra de sal está para o mar. E às vezes ainda é mais
triste: é o próprio gosto pelo amor, como quem gosta de um prazer
qualquer, que mata o amor – a possibilidade de amar – logo à nascença.
Será este o único desgosto, por muito caladinho que seja, tão grande
como um desgosto de amor.
Fotografia: Jean Baptiste Mondino
Ouve-se: James Blunt - Carry you home
domingo, outubro 06, 2013
Escreve-me muitas vezes
como os percursos ininterruptos das formigas
o ritmo dos girassóis devolvidos à condição de flor
e o reflexo das nuvens no lado interior dos rios
guardados nas minhas mãos
Escreve-me tantas vezes
quantos os nocturnos quase-vazios entre as estrelas
os quebrantos de mar aos pés prateados da lua
e as intuições anunciadas na respiração dos dedos dos amantes
Nunca deixes de me escrever
como se o tempo das palavras fosse o dos regressos
confirmado na existência e docilidade das pedras
Nunca deixes de me sentir
como os percursos ininterruptos das formigas
o ritmo dos girassóis devolvidos à condição de flor
e o reflexo das nuvens no lado interior dos rios
guardados nas minhas mãos
Escreve-me tantas vezes
quantos os nocturnos quase-vazios entre as estrelas
os quebrantos de mar aos pés prateados da lua
e as intuições anunciadas na respiração dos dedos dos amantes
Nunca deixes de me escrever
como se o tempo das palavras fosse o dos regressos
confirmado na existência e docilidade das pedras
Nunca deixes de me sentir
Sandra Costa
Ouve-se: Audioslave - Like a stone
terça-feira, outubro 01, 2013
domingo, setembro 15, 2013
Fotografia: autor desconhecido
Ouve-se: 30 Seconds to Mars - The race
Ouve-se: 30 Seconds to Mars - The race
sexta-feira, setembro 13, 2013
As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açúcares mais lentos.
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açúcares mais lentos.
Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas – por amor,
talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que
ainda esperam por mim.
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas – por amor,
talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que
ainda esperam por mim.
Não sei se volto.
Fotografia: Peter Lindberg
Ouve-se: James Blake - Limit to your love
segunda-feira, agosto 19, 2013
"Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse
e também a que não disse,
dói-me o mundo.
Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa."
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse
e também a que não disse,
dói-me o mundo.
Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa."
Hoje festejas o teu aniversário e mais uma vez não estou contigo.
A vida não espera meu Amor.
Fotografia: Martin Waldbauer
domingo, agosto 04, 2013
Coragem, às vezes, é desapego. É parar de se esticar, em vão, para trazer a linha de volta. É permitir que voe sem que nos leve junto. É aceitar que a esperança há muito se desprendeu do sonho. É aceitar doer inteiro até florir de novo. É abençoar o amor, aquele lá, que a gente não alcança mais.
Ana Jácomo
Fotografia: Vincent Peters
Ouve-se: Bon Iver - Blindsided
segunda-feira, julho 22, 2013
Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.
Ouve-se: The Smashing Pumpkins - Ava Adore
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