quarta-feira, agosto 31, 2011

Desilusão é uma decepção ou desencantamento decorrente de uma experiência negativa profunda; é ato de desiludir-se, desenganar-se, o que pressupõe que nos enganamos sobre algo ou alguém, que em um momento qualquer, acreditámos.

 Wikiquote, a coletânea de citações livre.
Fotografia: retirada da internet

sábado, agosto 27, 2011

Amamos da forma que fomos amados (?)


Fotografia: Rene Magritte
Ouve-se: The Story

terça-feira, agosto 02, 2011

"Essas manhãs nulas, canceladas, em que oiço música sem a escutar, em que fumo sem sentir o sabor do tabaco, em que olho pela janela sem ver nada, em que na verdade perco todo o contacto com a realidade sem que por isso tenha um maior contacto comigo mesmo, essas manhãs em que estou fora do mundo e fora da consciência, em que flutuo numa espécie de terra de ninguém, num limbo onde estão ausentes as coisas e as ideias das coisas, e não me deixam outro legado, essas manhãs, a não ser o tempo sem conteúdo."



Julio Ramón Ribeyro | Prosas Apátridas
Ouve-se: Twinkle Twinkle - Fredrika Stahl

terça-feira, julho 26, 2011

O amor esgota-se?



Fotografia: Magnum Photos
Ouve-se: Silêncio

quinta-feira, julho 21, 2011


"(…) Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. 
Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro. Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem(...)."

Fabrício Carpinejar
Fotografia: Helmut Newton
Ouve-se: Gotan Project - Mi Confesion

segunda-feira, junho 27, 2011

Happy Birthday to Me

sexta-feira, junho 24, 2011



"Descobri a razão pela qual as mulheres gostam de homens sacanas.
Porque o amor, por definição, é um dom não merecido; ser-se amado sem mérito é justamente a prova de um amor verdadeiro. Se uma mulher me diz: amo-te porque és inteligente, porque és honesto, porque me dás presentes, porque não andas no engate, porque lavas a louça, sinto-me decepcionado; este amor tem o ar de ser qualquer coisa de interessado. É muito mais bonito ouvir: estou louca por ti apesar de tu não seres nem inteligente nem sério, e embora sejas mentiroso, egoísta e safado."




quinta-feira, junho 23, 2011


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. (…) O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
(…) Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

quinta-feira, junho 09, 2011


"Amar é muito mais que gostar. 
É desatar os nós que nos impedem de ser felizes e apertar os laços que nos unem."
  
Helena Sacadura Cabel - Nós de Amor
Fotografia: Lois Greenfield

quinta-feira, maio 26, 2011

E

xistimos quando alguém nos recorda (?)
 


Carlos Ruiz Zafón
Fotografia: Jason Schmidt

domingo, maio 22, 2011

 
“Quero o circo todo a que tenho direito: sedução, fantasia, tempo. Quero um romance longo, quero intimidade. Fazer cena de ciúme, terminar, voltar, amar, brigar de novo, telefonar, pedir desculpas, retornar. Amantes bem comportadas são um tédio.”

Martha Medeiros
Fotografia - Amantes do Metro - Pedro Noel da Luz

domingo, abril 24, 2011

 Por vezes questiono-me onde se localiza a alma: se no coração ou no cérebro.

Ouve-se: Amor Electro - A Máquina

domingo, abril 17, 2011



(...)


- Estou sempre contigo, sempre.

- E tu pesas-me.

- Sem ti, sinto-me num vácuo.

- És de chumbo.

(...)

Carlos Bessa

Foto: Richard Avedon
Ouve-se: Moby- Porcelain

domingo, abril 10, 2011

 "Se aquilo que a gente sente
Cá dentro, tivesse voz
Muita gente, toda a gente
Teria pena de nós."

Augusto Gil - O Canto da Cigarra.
Foto: Richard Avedon
Ouve-se: Florence + The Machine - Dog Days Are Over

quarta-feira, abril 06, 2011



"Sou um mestre na arte
de falar em silêncio
Toda a minha vida falei
calando-me e vivi em
mim mesmo tragédias
inteiras sem pronunciar
uma palavra."

Fiódor Dostoiévski
Foto: Giselle Rocha
Ouve-se: David Fonseca - I See the World Through You

 

domingo, abril 03, 2011

"Era uma mulher reservada, sem ânimo para espantar o medo de se engalfinhar com o mundo. Um dia descobriu-se doente por um médico sem pruridos de linguagem: «Tem um problema raro e irreversível. Nem vale a pena tratar. Dou-lhe dois anos de vida e uma certeza: não vai sentir nada.» Podia ter chorado, como sempre fazia perante as pequenas contrariedades do dia-a-dia, ou desesperado, como seria normal numa situação de morte anunciada, mas a verdade é que a notícia lhe provocara um secreto regozijo. Era a sua oportunidade de mudar, de definir objectivos, de gizar o seu destino no papel crespo que lhe restava. Elaborou, então, uma lista pormenorizada de desejos a cumprir e durante esses dois anos riu, brincou, viajou, bebeu, dançou, beijou e amou pela medida larga dos desprovidos de preconceitos e espartilhos. No final do prazo, despediu-se com uma festa de arromba dos amigos entretanto conquistados e retirou-se para um confortável hotel isolado no meio da mata, onde se dedicou a ler romances de qualidade duvidosa e a observar vagamente plantas e pássaros por não saber mais o que fazer. Sete anos passaram. A mulher continua a privilegiar a inércia, enquanto dura o dia; porém, todas as noites se lava e perfuma, veste uma elegante lingerie preta, aplica uma maquilhagem ligeira, destranca a porta do quarto e se deita, hirta, mãos cruzadas sobre o peito, à espera que algo extraordinário aconteça."

Alegre ou Triste
Foto:  Christian Tagliavini
Ouve-se: Gotan Project - Diferente

sábado, março 26, 2011


Uma mão fria aperta-me a garganta e não me deixa respirar a vida.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa.
Foto: José Vaz
Ouve-se: Agarra-me esta noite - Pedro Abrunhosa

terça-feira, março 22, 2011

Diogo deu a mão à rapariga e depois um beijo e logo se seguiu um abraço e tudo recomeçou; as línguas devoraram as bocas e as mãos exploraram os corpos, os ventres colidiram esfaimados.(...)
"Não" disse. "Isso não!"
O soldado sentia-se perder o controlo, mas conseguiu deter-se.
"Porque? Não Queres?"
Ela exalou um som estranho, mistura de suspiro com gemido.
"Oh, se quero! Mas não posso! Nao posso!"
"Porque?"
"Porque... porque é cedo.Mal nos conhecemos!..."
Diogo inclinou-se sobre o rosto dela e colou os lábios aos lábios dela.
"Mas eu amo-te"
"Eu também...", titubeou "eu também...mas não podemos!... Precisamos de tempo"
(...)
"Não temos tempo, meu amor"
"Que disparate! Claro que temos! Temos o tempo que quisermos"
"Eu sou um soldado meu amor" murmurou, lançando o às que tinha na manga.(...)"isso quer dizer que nem sei se amanhã estarei vivo. Entendes isso?"
(...)
A rapariga começou a chorar.
"Não... Não quero... Não te pode acontecer nada!..."
"E se acontecer? Como podes tu negar-nos o amor que merecemos? Como poderás tu viver com a consciência de que nem sequer me deixaste amar-te como um homem ama uma mulher?" (...)"Ama-me como se me perdesses amanhã".
Incapaz de resistir mais um segundo que fosse, Sheila puxou-o para si, estreitando-o num abraço esfaimado, e beijo-o longamente na boca. O rapaz sentiu o corpo dela abandonar as defesas e as pernas entreabrirem-se, numa rendição que era também um convite, sínal inequivoco que o ferro se dobrara enfim (...)

José Rodrigues dos Santos - O Anjo Branco

quarta-feira, março 09, 2011

corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
porque amo
ouvir-te perguntar quem fala ?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer

Al Berto, O Medo

Foto: Paul Pancadas

sexta-feira, março 04, 2011

Parece haver de novo grades nas janelas
e poucos - tão poucos! -
que queiram ver para além delas.

Luísa Veríssimo, in Mais Poemas, inédito, 2008

quinta-feira, março 03, 2011

Esperança é uma crença emocional na possibilidade de resultados positivos relacionados com eventos e circunstâncias da vida pessoal. A esperança requer uma certa perseverança — i.e., acreditar que algo é possível mesmo quando há indicações do contrário. O sentido de crença deste sentimento o aproxima muito dos significados atribuídos à fé.

Wikipedia
Foto: Aniix

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

"Amava-te também, cheio de medo, quando fixavas o olhar na distância, quando adivinhava que estavas muito longe de mim nos teus pensamentos. 
Amava-te com terror quando adivinhava os teus pensamentos e mais ainda quando não os adivinhava, meu Deus!"

Os Jardim da Memória, Orhan Pamuk
Ninguém pode construir no teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida. Ninguém, excepto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem número, e pontes, e semi-deuses que se oferecerão para levar-te além do rio, mas isso custar-te-ia a tua própria pessoa: hipotecar-te-ias e perder-te-ias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Aonde leva? Não perguntes, segue-o!"

Friedrich Nietzsche
Foto: Denise Cardoso
 

sábado, fevereiro 19, 2011


Vou tomar conta de mim....

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Ela: Gostas de mim?
Ele: Sim...
Ela: Muito ou assim-assim?
Ele: (silêncio)
Ela: Assim-assim, não é?
Ele: Sim...

Foto: Ricardo Madeira

domingo, fevereiro 06, 2011

“Aquilo a que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Escolhem, juro-te, já os vi fazerem-no. Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. (...) Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Não podemos escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto.”

Julio Cortázar -O jogo do mundo


sábado, fevereiro 05, 2011



“Fosse como fosse, ela já não me amava naquele momento: já não se preocupava com o efeito a produzir sobre mim”.

Marguerite Yourcenar, O Golpe de Misericórdia

sábado, janeiro 29, 2011

Outro tipo de mulher nua

(...)Talvez a verdadeira excitação esteja, hoje, em ver uma mulher se despir de verdade - emocionalmente. Nudez pode ter um significado diferente. Muito mais intenso é assistir a uma mulher desabotoar suas fantasias, suas dores, sua história.
É erótico ver uma mulher que sorri, que chora, que vacila, que fica linda sendo sincera, que fica uma delícia sendo divertida, que deixa qualquer um maluco sendo inteligente. Uma mulher que diz o que pensa, o que sente e o que pretende, sem meias-verdades, sem esconder seus pequenos defeitos - aliás, deveríamos nos orgulhar de nossas falhas, é o que nos torna humanas, e não bonecas de porcelana. Arrebatador é assistir ao desnudamento de uma mulher em quem sempre se poderá confiar, mesmo que vire ex, mesmo que saiba demais (...)
Não é fácil tirar a roupa e ficar pendurada numa banca de jornal mas, difícil por difícil, também é complicado abrir mão de pudores verbais, expôr nossos segredos e insanidades, revelar nosso interior. Mas é o que devemos continuar fazendo. Despir nossa alma e mostrar pra valer quem somos, o que trazemos por dentro.
Não conheço strip-tease mais sedutor.

Martha Medeiros
Foto:Nuno Aguiar

domingo, janeiro 09, 2011

"Era a presa fácil para aquele homem, tinha cheiro de fêmea e flor e sabor de alecrim. Num impulso vão de se esquivar do desejo bruto do macho, se escondia sob a semi-transparência azul dos seus sonhos de menina, guardava por dentro dos sonhos, a chave que protegia o essencial: sua docilidade, a pontiaguda sensibilidade de amor, sua secreta fragilidade; que ele, em sua crueza de bicho faminto, jamais poderia tocar. Foram dias buscando um caminho, esbarrando nas sombras de seu espírito contraditório, lutava contra o desejo de ceder, de desistir de si mesma nos momentos em que o frio era maior. Foram dias pensando em como fugir do mundo que a maturidade lhe impingira, o mundo daquele homem, daquele bicho, daquela fome. Foram horas suando saudades de dias passados, foram minutos até o ato: levantou-se do canto do sofá onde bordava suas angústias, deixou escorregar do corpo o véu, seguiu, fechou a porta sem medo, sem olhar"

Ivana Pascoal 
foto: http://olhares.aeiou.pt/AmandaCom

domingo, janeiro 02, 2011


Quais são para ti as coisas mais belas do mundo? São as coisas de verdade, como tanto quanto se vê e toca? Ou as coisas invisíveis, aquelas que pensamos, sentimos e sonhamos?

valter hugo mãe: As mais belas coisas do mundo
http://olhares.aeiou.pt/jkatarino

sábado, dezembro 18, 2010

Será este o verdadeiro rosto do amor?
"- Anda, vem comigo - ordenou-me.
- Não posso nem devo - disse-lhe eu, levantando-me e seguindo-a. - O doutor Pineau proibiu-mo. Pelo menos durante dois meses, não te posso tocar e muito menos fazer amor contigo. E não te tocarei, nem farei amor contigo, até estares curadinha. Entendido?
Tínhamo-nos metido já na cama dela e ela enroscou-se contra mim e apoiou a cabeça no meu ombro. Senti o seu corpo, que era só pele e osso, e os seus pequenos pés gelados contra as minhas pernas e percorreu-me um calafrio da cabeça aos calcanhares.
- Não quero que faças amor comigo - sussurrou-me, beijando-me no pescoço. - Quero que me abraces, que me dês calor e que me tires o medo que sinto. Estou a morrer de terror.
O seu corpinho, uma forma cheia de arestas, tremia como varas verdes. Abracei-a, esfreguei-lhe as costas, os braços, a cintura, e estive muito tempo a dizer-lhe coisas doces ao ouvido. Nunca deixaria que ninguém voltasse a fazer-lhe mal. Tinha de fazer muita força para se restabelecer depressa e recuperar as forças, a vontade de viver e de ser feliz. E para ficar bonita outra vez. Ouvia-me muda, soldada a mim, percorrida de vez em quando por sobressaltos que a faziam gemer e retorcer-se. Muito depois, senti que adormecia. Mas ao longo de toda a noite, no meu semi-sono, senti-a estremecer, queixar-se, presa daqueles recorrentes ataques de pânico. Quando a via assim, tão desamparada, vinham-me à cabeça imagens do sucedido em Lagos e sentia tristeza, cólera, ferozes desejos de vingança contra os seus vitimários." 
 
Mario Vargas Llosa - Travessuras da Menina Má
 

sábado, dezembro 11, 2010


“As pessoas pensam que uma alma gémea é o seu encaixe perfeito, e é isso que toda a gente quer. Mas uma verdadeira alma gémea é um espelho, é a pessoa que te mostra tudo aquilo que te prende, a pessoa que te chama a atenção para que possas mudar a tua vida. Uma verdadeira alma gémea é, provavelmente, a pessoa mais importante que alguma vez conhecerás porque irá derrubar os teus muros e despertar-te à força. Mas viver com uma alma gémea para sempre? Não. Demasiado doloroso. As almas gémeas entram na nossa vida apenas para nos revelar outras camadas de nós próprios, e depois vão embora.”

quarta-feira, dezembro 01, 2010


“a laura morreu, pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias. foi o que fizeram. depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavam que ia servir apenas para que eu cultivasse a dor de perder a minha mulher. depois, ainda nessa mesma tarde, trouxeram a imagem da nossa senhora de fátima e disseram que, com o tempo, eu haveria de ganhar um credo religioso, aprenderia a rezar e salvaria assim a minha alma.”
Valter Hugo Mãe - a máquina de fazer espanhóis
Queres um cigarro? Eu vou fumar um. Acendo-os agora como tu me ensinaste, com um fósforo grande, deixando que arda durante um bocado até que o sulfato consuma completamente e não estrague o sabor do tabaco....
...não é fácil, eu sei. Hás-de ter sentido a falta de qualquer coisa, da humanidade de um som que te fizesse descer à terra, do calor que a minha voz não tinha. Eu sei. Ninguém vive só de amor e muito menos de um amor quase ausente. Eu sei, eu sei que é estranho este meu modo de ser e de te dizer, em silêncio, que te amo.

Manuel Jorge Marmelo 
foto: olhares.aeiou.pt/CSal

sexta-feira, setembro 17, 2010

Na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu.Depois, a minha irmã mais velha
casou-se. Depois, a minha irmã mais nova
casou-se. Depois, o meu pai morreu. Hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viuva. Cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. Mas irão estar sempre aqui.
Na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
Enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luis Peixoto

segunda-feira, setembro 13, 2010

Quero-te assim
submissa
Nua
Despida de roupa
e preconceitos
Quero-te assim
na tua nudez
Algemada
Escrava
Sem braços
para me abraçar
Pois estás algemada
Nua
Transpirada
Sedutora
És minha
Todo o teu corpo meu
Todo o teu cárcere é prazer
Na tua nudez submissa
És minha
Algemada Provocante

Toda minha
Submissa...
E minha...

Autor desconhecido
Foto:Carla Broekhuizen 
http://olhares.aeiou.pt

domingo, agosto 01, 2010

 
«Conheço agora alguma da minha capacidade… Sei o que quero fazer com a minha vida, tudo isto sendo tão simples, mas tão difícil para mim sabê-lo no passado. Quero dormir com muitas pessoas – quero viver e odeio morrer – não vou ensinar, nem tirar um mestrado depois de fazer a licenciatura…
Não tenciono deixar que o meu intelecto tome conta de mim, e a última coisa que quero fazer é admirar o conhecimento ou pessoas que detêm o conhecimento! Não quero saber da agregação de factos de ninguém, excepto quando for um reflexo [da] sensibilidade básica que necessito… Tenciono fazer tudo…»

Susan Sontag, in “Renascer” quetzal, 2010
trad. Nuno Guerreiro Josué

sábado, julho 10, 2010


Às vezes penso que se fosse uma magnólia quereria ser um laranjeira, se fosse um águia quereria ser um cavalo ou se fosse um quadro quereria ser uma fotografia. Esqueço-me que devo ser o que sou. Pela evidência de ser o único que tenho e posso ser e, porque, só quando gostar disso é que posso tocar a felicidade e passá-la.
Fico a pensar que perdemos demasiado tempo em querer dar laranjas, em galopar velozmente ou em ser o flash de um instante supremo. Quando, na verdade, o que podemos fazer é chegar a dar muitas e belas flores, voar cada vez melhor ou tornarmo-nos até num Rembrandt.
Cada qual deve acabar por pegar na própria vida nos braços e beijá-la.

Arthur Miller

domingo, junho 27, 2010



Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece. 

Vinicius de Moraes

sábado, junho 05, 2010

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.
Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.
Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.
À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.












João Cabral do Nascimento

segunda-feira, abril 12, 2010

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho
Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio
Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo
Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo
Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo
E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento
Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas
Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.
Maria Teresa Horta

quinta-feira, abril 08, 2010

"Deixo que a minha vida decorra acompanhada de um sereno, aprazível tédio. Discrição, geometria, elegância e calma. Já não me agito, já não sigo pelo lado mais estúpido da vida, as estrelas são mapas de abismos exteriores, não tolero a solidão, temo a insídia do tempo e da idade, a insónia, o tremor dos limites.
Porque as minhas constantes vitais desta manhã são o sol que saúda os despertares, a descoberta do prazer de ser cortês, a revelação algo tardia de que tudo é excepcional, a entrega de gentileza na relação com as pessoas, a impressão de viver em plena tempestade de calma, a satisfação de ter perdido uns quilos, a gestão da herança literária do antigo ocupante do meu corpo, a abordagem suave de uma lógica espartana do trabalho, a crença de que os gordos são os outros, a utilização da ironia moldada como rasgo de elegância, de tímida felicidade, definitivamente."
Enrique Vila-matas - Exploradores do Abismo

sábado, abril 03, 2010

"Durante anos procuramos encontrar alguém que nos compreenda, alguém que nos
aceite como somos, capazes de nos oferecer a felicidade, apesar das duras
provas. Apenas ontem descobri que esse mágico alguém é o rosto que vemos no
espelho."
Richard Bach

domingo, março 21, 2010

É bom mudar de casa, de janela,
arrumar de outra maneira as ilusões,
tratar de coisas puras como tintas
e sofás, pôr ordem entre os livros
e a vida, simular a liberdade.
Parece-nos possível voltar a acreditar
na mão que nos estende um pé de salsa,
na pechincha da beleza, quando passa
no poente da razão.
Apetece cometer uma loucura,
comprar um telescópio, decorar
o canto nono dos Lusíadas,
subir umas escadas do avesso,
pensar que nunca mais teremos frio.

Mudar de Casa, José Miguel Silva

sábado, fevereiro 13, 2010

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles a boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.

(Maria Gabriela Llansol - O Começo de um livro é precioso)

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Aos 77 anos, como é natural, aparecem-nos todas as mazelas. Insignificâncias: uma dor aqui, uma dor ali, nas costas, na perna, na cabeça, uma pequena coisa na pele, na unha, no olho. Não ligo nenhuma. Porque a minha pior mazela é não acreditar que tenho 77 anos. Eu bem me farto de dizer aos quatro ventos a minha idade, para ver se interiorizo esse facto, mas, por dentro, estou na casa dos trinta, vá lá quarenta e não passo dai.

Setenta e sete anos? Que loucura!!!

Tenho sempre tanta coisa para fazer, para acabar, para ler, para escrever, tanto lugar para visitar, tanto museu para ver e depois as mazelas – ai! – Mas vou, porque tenho trinta anos, e evidentemente, tenho que ir.

Não tenho noção de ser uma senhora velha. Digo estava lá uma velhota ou Imaginem que uma velha…Estou a falar de pessoas provavelmente mais velhas do que eu, mas não me enxergo. Até quando irá durar esta idade subjectiva que não me deixa envelhecer tranquilamente?

Só quando me oferecem o braço (já cai na rua e parti a perna, mas nem assim…), quando me sentam no lugar de honra à mesa, quando me dão o assento da direita no automóvel, quando não me dirigem galanteios (que estranho!), acordo para a realidade: ai, é verdade, tenho 77 anos, que maçada…

Ultimamente, tive (ou tenho, ainda não percebi) cancro da mama. Como acho que deus não me ia mandar esta doença só para me chatear, abri uma campanha de sensibilização (televisão incluída), para que as mulheres façam mamografias. Transformei a porcaria da doença numa coisa positiva. Passei os trâmites habituais: operação, radioterapia, etc. tudo pacífico. Ainda por cima, o médico disse-me que era pouco provável que o cancro me matasse, porque, na minha idade, as células já não são o que eram… Ai, sim?

Tenho 77 anos, que Alegria!...

Rosa Lobato Faria

sábado, janeiro 02, 2010


Mude
Mas comece devagar, porque a direção
é mais importante que a velocidade.
Mude de caminho, ande por outras ruas,
observando os lugares por onde passa.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Descubra novos horizontes.

Não faça do hábito um estilo de vida.

Ame a novidade.
Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método, o novo sabor,
o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
Procure novos amigos, tente novos amores.
Faça novas relações.
Experimente a gostosura da surpresa.
Troque esse monte de medo por um pouco de vida.
Ame muito, cada vez mais, e de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, de atitude.

Mude!
(...)
Sonhe só o sonho certo e realize-o todo dia.

Lembre-se de que a Vida é uma só,
e decida-se por arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação, um trabalho mais prazeroso,
mais digno, mais humano.
Abra o seu coração de dentro para fora.

Se não encontrar razões para ser livre, invente-as.

Exagere na criatividade.
E aproveite para fazer uma viagem longa,
se possível sem destino.
Experimente coisas diferentes, troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Conhecerá coisas melhores e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento, a energia, o entusiasmo.
Só o que está morto não muda !
Edson Marques
foto - olhares.com

sexta-feira, dezembro 25, 2009


Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.
Nuno Júdice, in "A Fonte da Vida"


Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar.
Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.
Madre Teresa de Calcuta

quinta-feira, novembro 26, 2009


Comecei a fumar para te pedir lume.
Para arranjar um motivo. Para.
Tens lume? Perguntei-te.
Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso.
Engatilhaste o zippo. Todo prateado.
Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita.
Eras canhoto, como o coração.
Agora. Disseste.
E levei o cigarro até à chama.
Já está. E sorriste.
Importas-te que te acompanhe? Perguntaste.
Não, claro que não. Claro que não.
Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos.
O cigarro sempre aquece.
Sim. Tossi.
Estás bem? Perguntaste.
Estou muito bem.
Óptimo. Disseste. E sorriste.
Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada?
Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste.
Sim, um chá calhava bem. Estava mesmo a apetecer-me.
Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu.
Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida
Que correram mal, imediatamente mal.

Comecei a fumar para te pedir lume.
Para passar o frio.
Descobri que não viria a morrer
Nem de cancro pulmonar, nem de amor,
mas da própria morte, mal o lume se apagou
e o café fechou as portas. Para sempre.

Ana Salomé

sábado, novembro 07, 2009



"...Quando a estrada fica interrompida,
o desvio pode ser interessante..."
Martha Medeiros




quinta-feira, novembro 05, 2009


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma (...)
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la (...)
António Cícero
Foto de Maria Flores